Um caso que mobilizou a pequena cidade de Irecê, no interior da Bahia, chegou ao fim após dez anos de tramitação judicial. O lavrador Seu Luiz, de 62 anos, foi absolvido por unanimidade da acusação de tentativa de homicídio contra o genro, após ser acusado de dar 80 chibatadas no homem que havia agredido sua filha.
O caso que chocou a cidade
Morador da zona rural de Irecê, Seu Luiz começou a desconfiar do comportamento da filha, que passou a visitar os pais usando roupas compridas para esconder os hematomas. A mãe da jovem confirmou as suspeitas: o genro vinha praticando violência doméstica.
Revoltado, o lavrador decidiu tirar satisfação. Durante o confronto, o genro admitiu que havia batido na esposa “para ela aprender a respeitar um homem”. Foi nesse momento que Seu Luiz, tomado pela raiva, amarrou o agressor e desferiu dezenas de golpes com uma corda de couro.
Segundo o próprio genro, as agressões só pararam quando o objeto se rompeu.
💬 “Você vai sentir a dor que ela sentiu”
Durante o julgamento, Seu Luiz emocionou o júri ao recordar o momento em que decidiu punir o agressor:
“Rapaz, elemento ruim, covarde! Como tu bate na filha de um homem? Uma filha que eu criei nos meus braços. Agora você vai sentir a dor que ela sentiu.”
Em outro trecho, ele completou:
“Ele é bom pra bater em mulher. Eu só queria fazer ele sentir o que é apanhar de alguém em vantagem. Se fosse pra matar, eu tinha feito e largado o corpo na estrada.”
A decisão da Justiça
Inicialmente, o lavrador foi indiciado por tentativa de homicídio, mas a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) conseguiu demonstrar que ele não teve intenção de matar, agindo em um contexto de proteção da filha.
Durante o julgamento no Tribunal do Júri de Irecê, o Conselho de Sentença absolveu o réu por unanimidade, entendendo que sua conduta foi movida por instinto de pai e pela tentativa de interromper um ciclo de violência doméstica.
Foto: Reprodução DPE/BA“A absolvição de Seu Luiz não é apenas a vitória de um homem, mas da justiça, da dignidade e do direito de defesa”, afirmou o defensor público Felipe Ferreira, responsável pela defesa.
Contexto de violência doméstica
O caso remonta a 2015, quando Seu Luiz recebeu uma ligação informando que a filha havia sido espancada durante a madrugada. Ao chegar à casa dela, encontrou marcas da agressão e o celular quebrado.
Após levar a filha e as netas para sua residência, chamou o genro para uma conversa — mas o encontro terminou em violência física.
Três dias depois, o genro registrou boletim de ocorrência, e o lavrador passou a responder por sequestro, cárcere privado e tentativa de homicídio.
Vitória simbólica
A decisão do júri foi comemorada pela comunidade local. Para muitos moradores, o desfecho representa um reconhecimento da dor e da reação de um pai diante da violência contra uma filha.
O caso também levantou debates sobre limites da legítima defesa de terceiros e respostas sociais à violência doméstica no meio rural.